domingo, 20 de maio de 2012

um piano à luz do luar

Numa reunião do movimento estudantil conheci Paulo César. Eu tinha 17 anos e fazia o clássico, ele um pouco mais, estudava na Filosofia- fazíamos revolução. Ele tinha um sorriso lindo, aberto. O reencontrei. Depois me disse como tinha gostado do meu pulover azul-marinho que costumava vestir, inclusive naquela reunião.Um dia, à noite, fui ao apartamento dele. Me abraçou e deitou sobre mim no sofá da sala.Meu primeiro prazer amoroso. E voltei. E conheci a namorada, a Regina, moderna, diferente, e um amigo, Gustavo,  doce garoto que conhecia de vista no cine Paissandú, para ouvirem as ideias guerrilheiras da organização política de que eu era militante. Achei importante ser ouvido, responsável por uma luta de mudança no Brasil. Enquanto falava senti que era muita retórica. Uma noite esperando eu chegar( eu prometera), à janela do apartamento, sua mãe, entendendo sua espera, lhe deu um beijo, compreensiva. Aos 18 anos, depois de pegar minha identidade, fui morar definitivamente com ele. Íamos muito ao cinema, pagava minha entrada. Conheci Maggie Smith, em Primavera de uma solteirona, que ele amava.Não entendi sua adoração gay, marxista calei àquele personagem simpatizante excêntrica de Mussolini. Outra vez, quando vimos a refilmagem de um clássico de Errol Flynn, Carga da Brigada Ligeira, ele comentou, à saída do mesmo Rian, na Avenida Atlãntica, que tinha me visto como se eu estivesse com 30 anos.É que tinha ficado impressionado pela desumanidade de uma batalha. Me surpreendia com o que Paulo Cézar dizia, amante inteligente e doce. Deslumbrado com a liberdade da idade, o deixei por amigos que viviam o movimento flower power que ele próprio me apresentara, achando que eu ia gostar da ideia, quando eu deixei de ser militante do movimento estudantil. Tinha me contado de um jovem hippie oferecendo uma flor num meio de uma estrada barrenta. Paulo Cesar me fez ouvir Janis Joplin. Com ele vi 2001, uma odissséia no espaço. E quando deixei de morar junto, me procurou num apartamento em que estava, e muito serio quis me explicar seu ponto de vista de eu estar sendo consumido pelas amizades " de Ipanema". Nâo entendi direito que ele queria era que eu voltasse para ele. Até que numa tarde, num ponto de ônibus barulhento, frente ao Metro Copacabana, nos despedimos, Ele me comparando a Madame Bovary. Paulo Cesar se transformaria num teatrólogo encenado. Anos depois chegou a recusar um beijo meu-  eu estava meio drogado de mandrix, na casa de sua analista lacaniana onde nos encontramos por acaso. Ele já tinha me dito, pois o visitava e transávamos, que a tinha procurado para entender sua fantasia erótica de sugerir que eu pensasse na cama num garçon que nos servia no Chaika que eu confessara a ele que achava lindo.Sofria às vezes com Paulo César, não por mal que me fizesse mas por problemas que eu tinha e ainda não entendia. Paulo César, tão afetuoso que quando visitei meus pais, ainda morando com ele e depois de quase um ano sem dar notícias, me   deu uma cerâmica Marajoara para agradar a minha mãe, que sofria com o meu desaparecimento em dias tão difíceis de ditadura mililtar. Paulo Cesar chegou a presentear minha irmã Lígia com Quarup um best seller político sobre a libertação pela vida sexual que só recentemente li. Escrevo agora e sinto como  podia amá-lo, e o amo, mesmo que não tivesse compreendido a necessidade que ele tinha de me ter.
Eu era impensadamente livre, querido. Obrigado pelo amor que nos juntou.