terça-feira, 20 de março de 2012

satisfaction

Dançava rock and roll em casa, com minha irmã Lígia. Era uma coreografia algo acrobática, que víamos em filmes. Meu pai, que tinha nos comprado um lp de bela capa do Elvis, pedia para dançarmos para parentes, morríamos de vergonha...
Só na minha primeira festa de adolescente dancei " comme il faut" nos anos 60: livre e loucamente. Os colegas da minha turma do Clássico riram muito comigo.
Mas ir à festa foi pretexto. Como podia chegar tarde em casa, aproveitei para ir à minha primeira sessão de meia noite no cine Paissandu. Era um filme russo: Don Quixote.
Entrei muito à vontade no cinema ( tinha bebido um pouquinho), seguido por um amigo que tinha um topete que eu adorava, e era meio odioso, e tinha tentado me dissuadir da ideia desde a festa....
Depois fui a muitas sessões de meia noite. Com meus amigos, o Bruno especialmente. Eu tinha 20 e tantos anos e era acontecimento sempre apaixonante, nos anos 70.
Muitas vezes, quando voltava de madrugada para casa, de táxi, namorava os motoristas. Achava que era preciso, que os amava...
A um, à tarde, perguntei se seu pau era musculoso, ficou sem graça. Quando saltei, me chamou e disse que era sim...aí, também, eu meio sem graça disse que tinha gente olhando...
Numa madrugada, já de manhã, voltando para casa da Zona Sul, o motorista simpático riu com minha conversa meio solta,  embriagado, e me afirmou com convicção que não era preguiçoso. Decidi que também não!

moderno

Séria atenção dei ao conceito de moderno quando Lisiane, musa e fotógrafa, lembrando ,com espontaneidade, assim referiu-se a um hábito seu. Prestei tanta atenção em como uma simples atitude era, moderna.
Engraçado, foi mais ou menos na época em que falava de História e perguntei sobre algo relacionado. Ao que ela prontamente, com uma inflexão sentida verdadeiramente na voz, me respondeu que achava insalubre... fiquei passado.

Algo de bom

A chuva súbita.Eu numa fase difícil, persistindo no computador.
Com olhos ainda turvos de gel e colírios de exames oftalmológicos, e sem guarda-chuva, comecei a andar, um pouco à frente de minha mãe.
Ela, independente, eu abrindo meu caminho, atravessamos a rua e começamos a andar na calçada, sob marquises da rua Conde de Bonfim.
Foi a uma loja e eu à Via Verde, do lado. Cumprimentei o rapaz vendedor com um " tudo bem" algo intenso. Ao que ele respondeu " ainda melhor com sua presença".
Perguntei sobre alguns chás, desviando o olhar. Ele procurou meus olhos, me surpreendi.
Inclui sal grosso com fragrância para banho, que vi por acaso quando a caixa já tinha registrado a conta com razoável desconto, que ele dera, muito seguro de si.
Fabiano e eu nos despedimos carinhosamente.
Também adquiri óleo de linhaça, em cápsulas, que ele recomendou vivamente antes, como tendo o ajudado num problema ótico.
Era dia de meu aniversário.

domingo, 4 de março de 2012

palavra milagrosa

Meu pai me esperava no carro, eu saindo de ver O Milagre de Ann Sullivan/ Miracle Work. Disse especial e decididamente para ele que quando eu ia ao cinema mudava minha vida.Ele, sério e compenetrado na direção, respondeu com voz segura e serena que eu devia ir muito ao cinema.
Meu pai não concordava com minhas ideias socialistas, mas achava graça quando eu disse que minha tia Iracema, considerada feia, era linda.
Gostava de conversar sobre filmes, artistas, mesmo os que não sabíamos os nomes.
Adoentado, uma vez me chamou para me aconselhar algo que parecia importante, eu estava apressado para terminar monografias de graduação...
No hospital, pedi para ele falar mais,ficava muito calado. Entao me disse que nunca tinha interferido na minha vida e que eu fizesse o mesmo. Fiquei contente, o achando consciente. Falei para minha mãe e sobrinha. Acho que não entenderam.
A última vez que o vi, estava muito bem mesmo, me perguntou interessado sobre o cachorro Guga que estava conosco, e ele não conhecia. Falei muito, contei de como o Guga derrubava meu material de estudo sobre a mesa, se eu saísse.
Não fui ao seu enterro porque o Guga não estava se sentindo bem. Estava ficando cego e tremia muito.
Quando me lembrava de meu pai eu era um sorriso terno, íntimo. Hoje sei bem que era espírita.

velho

Tenho medo dessa palavra, e depois de ver os passinhos muito lentos de Sérgio Brito, no teatro Sérgio Porto, vendo uma montagem de Cristina Jatahi, fiquei ainda mais temeroso.

Porque achei, pensei, o que todos acham: ficar velho seria humilhante e, até ( Meu Deus!), digno de pena.

Mas quando nosso velho ator e galã, comentarista de televisão, faleceu,o achei tão lindo, tão digno de admiração e não só por sua longa e ilustre história. Claro que por isso também, mas falo "não só" porque esse motivo seria algo retórico.

O achei, o senti, completo.

Quando penso que aos 60 sinto precariedades de saúde, vejo que o melhor não é preocupar-se com a juventude ou velhice, mas com providências simples como cuidar de modos, hábitos como o de lavar as mãos e o rosto ou guardar minhas coisas para quando precisar e organizá-las para achá-las. Providências simples,delas depende a tranquilidade, e o futuro e o sentido de estarmos no mundo cuidando da vida- o que na minha adolescência e 20 anos era um sonho, uma utopia. Hoje preciso cuidar para manter minha vida e evoluir como devo.