Meu pai me esperava no carro, eu saindo de ver O Milagre de Ann Sullivan/ Miracle Work. Disse especial e decididamente para ele que quando eu ia ao cinema mudava minha vida.Ele, sério e compenetrado na direção, respondeu com voz segura e serena que eu devia ir muito ao cinema.
Meu pai não concordava com minhas ideias socialistas, mas achava graça quando eu disse que minha tia Iracema, considerada feia, era linda.
Gostava de conversar sobre filmes, artistas, mesmo os que não sabíamos os nomes.
Adoentado, uma vez me chamou para me aconselhar algo que parecia importante, eu estava apressado para terminar monografias de graduação...
No hospital, pedi para ele falar mais,ficava muito calado. Entao me disse que nunca tinha interferido na minha vida e que eu fizesse o mesmo. Fiquei contente, o achando consciente. Falei para minha mãe e sobrinha. Acho que não entenderam.
A última vez que o vi, estava muito bem mesmo, me perguntou interessado sobre o cachorro Guga que estava conosco, e ele não conhecia. Falei muito, contei de como o Guga derrubava meu material de estudo sobre a mesa, se eu saísse.
Não fui ao seu enterro porque o Guga não estava se sentindo bem. Estava ficando cego e tremia muito.
Quando me lembrava de meu pai eu era um sorriso terno, íntimo. Hoje sei bem que era espírita.
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